Ciclo de captação da quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas bate recorde e amplia rede de doadores

A imagem ilustra a reportagem sobre a quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas. Pode-se ver na foto uma mulher negra, com cabelos crespos descoloridos e usando calça clara, camisa rosa e blazer escuro, sentada em um banco enquanto

A quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas mobilizou R$ 1.341.452 para bolsas de estudo e formação de estudantes negros e negras, valor que representa a maior arrecadação da história do programa. Dentre os resultados deste ano, destacou-se a mobilização recorde de 544 doadoras e doadores diretamente engajadas financeiramente.

Os números mostram uma evolução consistente. Da primeira edição para cá, a arrecadação saltou de R$ 917 mil para R$ 1,34 milhão, confirmando a tendência de crescimento. “Esse último matchfunding foi histórico. Isso mostra o quanto ser uma plataforma consistente e o trabalho a longo prazo é importante”, afirma Viviane Soranso, coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso da Fundação Tide Setubal.

O percentual de arrecadação em relação à meta também impressionou. Enquanto em 2025 as instituições captaram 15% acima do valor inicialmente previsto, em 2026 esse índice subiu para 60%.

Das participantes, a Escola da Cidade, em seu primeiro ano de participação, alcançou 133% da meta inscrita, arrecadando R$ 300 mil. O Insper atingiu 116% da meta, com R$ 445 mil arrecadados, ao passo que Instituto Semear e FEAUSP chegaram a 100% da meta: cada instituição obteve R$ 298,8 mil e R$ 297,3 mil, respectivamente.

Estratégias de mobilização e resultados

O Insper participa do matchfunding desde a primeira edição e acumula experiência em campanhas de financiamento coletivo. A instituição mantém um programa de bolsas que atende 438 estudantes, entre as quais 174 se autodeclaram pessoas negras. A campanha Geração Nota Mil, ativada por meio da Plataforma Alas, visa manter o fundo de bolsas e fortalecer o pertencimento dos estudantes racializados.

“O programa de bolsas hoje financia estudantes bolsistas aqui do Insper. A gente luta pela permanência de todos eles na escola. Para isso, precisamos garantir que o espaço seja acolhedor e eles se sintam pertencentes”, explica Fernanda Morena, supervisora de relacionamento institucional do Insper.

Foram 58 doadores diretos pela plataforma Benfeitoria, mas o número total de participantes foi maior. A campanha envolveu uma gincana interna, na qual áreas da instituição se organizaram para captar recursos. “Desde o ano passado, a gente tem investido nessa estratégia do [movimento] Somos Todos Captadores”, explica Fernanda.

De 2024 para 2026, a participação de pessoas doadoras cresceu mais de 300%, sendo 24% o aumento do último ano. “Considerando o perfil dos benfeitores, a gente teve 92% de crescimento entre pessoas do Insper e 188% entre pessoas de fora da instituição. O interessante é que começamos a criar uma relação mais sustentável e uma cultura de apoio à diversidade aqui na escola”, avalia Fernanda.

Semeando apoios

Outra organização que participa desde a primeira edição é o Instituto Semear. A organização desenvolveu um programa baseado em quatro pilares: a bolsa auxílio, a mentoria, a rede de contatos e a trilha formativa.

“No primeiro ano da bolsa, nós temos a trilha de autoliderança, voltada para a adaptação desse jovem ao ensino superior. Trabalhamos temas como pertencimento, gestão de rotina, gestão financeira, saúde física e mental. No segundo ano, trabalharemos os propósitos e os planos de carreira”, detalha Bruna Tsarbopoulos, presidente do instituto.

Neste ano, a campanha arrecadou R$ 298.859 e o número de doadores foi de 129 pessoas. A mudança de estratégia foi decisiva para o resultado. “Até o ano passado, a gente estava olhando para doações das empresas. Esse ano investimos em mobilizar as pessoas que gostariam de apoiar a causa”, conta Bruna. A equipe entrou em contato direto com 516 pessoas e teve ticket médio de doações de aproximadamente R$ 549.

A lógica do matchfunding e a cultura institucional

A quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas funciona como um mecanismo de incentivo à doação. Para cada R$ 1 captado por uma instituição junto ao público, o Fundo Alas aporta R$ 2 adicionais.

Em contrapartida, as organizações recebem orientações para mobilizar suas redes para alcançar a meta estabelecida e para a equidade racial fazer parte da cultura institucional. Caso não atinjam o valor mínimo, as doações são devolvidas às pessoas benfeitoras, o que cria senso de urgência e de responsabilidade coletiva.

Para além do aspecto financeiro, o processo de construção da campanha envolve diferentes áreas das instituições. “Para construir a campanha, as organizações precisam acionar as áreas de comunicação, financeira e de programas de bolsa. Idem a rede de alunos para divulgar, os professores e os ex-alunos”, detalha Viviane Soranso.

A mobilização interna estimula que setores que normalmente não se envolvem com a agenda de equidade racial passem a debater o tema. “A campanha torna-se pública; então, trabalha-se com visibilidade e posicionamento público em relação a uma agenda. É preciso ter vários setores envolvidos nisso”, complementa a coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso.

Para o Instituto Semear, a participação na quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas alinha-se à missão institucional de promover a diversidade. “Um dos nossos valores é a diversidade como ativo. Entendemos que diversidade é um pré-requisito para crescermos como sociedade”, afirma Bruna Tsarbopoulos.

Nesse sentido, o Semear mantém um programa de reserva de vagas para jovens pretos, pretas e pardos, que representam 44% dos bolsistas. “A disparidade entre jovens pretos, pardos e brancos é gigantesca dentro das universidades. Quando há um programa de reserva de vagas, consegue-se garantir que, no mínimo, 20% desses jovens serão contemplados”, explica.

O papel da formação e do acompanhamento

O processo de preparação das campanhas para a quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas envolve encontros de mentoria realizados pela Benfeitoria, plataforma especializada em financiamento coletivo que atua como parceira da Fundação Tide Setubal desde o início da ação.

Assim sendo, as instituições recebem orientações para construir narrativas, produzir materiais audiovisuais e planejar a divulgação. “Eles são os primeiros a colocar essa semente para nós. Isso envolve dizer: ‘olha, para a agenda que vocês querem de equidade racial, pode ser bom usar esse tipo de estratégia, porque você mobiliza redes para construir uma campanha’”, recorda Viviane Soranso.

Ana Joyce Ribeiro, analista de captação de pessoas física do Instituto Semear, destaca a importância da pré-campanha com a Benfeitoria. “Tivemos esse momento de preparação e foi muito importante, porque conseguimos criar uma campanha que explicava para os doadores a proposta. Pudemos também, internamente, construí-la de modo coletivo”. Nesse processo, a instituição move-se para entender sua causa na equidade racial.

No Insper, o trabalho envolveu a parceria com organizações estudantis. “As organizações como o Raposas Negras, coletivo de estudantes negros e negras daqui, tem nos ajudado muito. Se não fosse esse apoio, não chegaríamos a esse resultado”, afirma Fernanda Morena.

A supervisora do Insper avalia que a campanha vai além da captação de recursos. “A iniciativa tem como objetivo captar recursos. Mas há outra meta para nós: aproveitar o momento para falarmos sobre temas importantes, mudarmos comportamentos e fazermos as pessoas olharem para a equidade racial de outra forma.”

Desafios e perspectivas para o futuro

Mesmo em sua quarta edição, o matchfunding ainda tem desafios. Entre eles, o monitoramento das pessoas beneficiárias em longo prazo. O programa acompanha estudantes por seis meses após o recebimento da bolsa, mas esse processo se torna mais difícil com o passar dos anos.

“Acompanhar durante seis meses uma pessoa que recebeu recurso em 2023 está se mostrando um processo desafiador”, reconhece Viviane Soranso. A equipe tem utilizado diferentes estratégias, como contato via WhatsApp e acionamento das instituições parceiras, para localizar as pessoas bolsistas.

Outro ponto de atenção é a continuidade do investimento na agenda de equidade racial por parte do campo do Investimento Social Privado. “A agenda de equidade racial no ISP ainda é programática e não estruturante. Quando a tendência passa, o número de recursos diminui”, analisa Viviane. “Para haver avanços consistentes, precisa-se apostar em longo prazo.”

A expectativa após a quarta edição do matchfunding da Plataforma Alas é que o fundo da iniciativa cresça, permitindo a participação de um número maior de organizações.

Por fim, a consolidação da Plataforma Alas como estratégia de mobilização de recursos e de transformação cultural pode indicar caminhos para incidência e atuação para o ISP. Isso reflete-se na meta para a quinta edição, que já está em planejamento: ampliar a rede de instituições financiadoras. “Queremos que mais instituições componham essa rede e somem esforços no que se refere ao recurso”, afirma Soranso.

Por Daniel Cerqueira Ciasca / Foto: Ono Kosuki / Pexels

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