Oportunidades e capacitação para pessoas negras transformarão o ecossistema gamer – Plataforma Alas entrevista Raquel Motta

Por Amauri Eugênio Jr. / Foto: Arquivo pessoal

Quando se fala no perfil de quem é gamer no Brasil, uma parcela para lá de expressiva é composta por mulheres e pessoas negras. Segundo dados da Pesquisa Gamer Brasil 2022, as mulheres integram 51% de quem se diverte com jogos digitais, enquanto 49,4% abrange pessoas negras segundo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – respectivamente, 37,3% pessoas pardas e 12,1% autodeclaradas pretas.

Todavia, se a paridade racial e de gêneros está próxima à realidade social brasileira, essa lógica ainda passa longe do que se vê no dia a dia quando se fala em quem trabalha na indústria gamer. Não por acaso, Raquel Motta, uma das fundadoras da produtora de games Sue The Real, é um nome que se destaca no ecossistema gamer – tanto pelo potencial e expertise que tem de sobra, como pelo fato de ser uma mulher negra.

Em entrevista à Plataforma Alas, Raquel, que foi uma das lideranças apoiadas na primeira edição do Edital Traços, em 2020 – que era à época conhecido como Caminhos -, fala sobre a sua trajetória, o trabalho desenvolvido por meio da Sue The Real, assim como o intercâmbio cultural e os contatos profissionais provenientes dos jogos desenvolvidos pela produtora da qual é CEO, representatividade e os próximos passos – inclusive no que diz respeito a como a sua presença terá para mais pessoas negras, em particular mulheres, ingressarem no universo gamer.

Confira o bate-papo a seguir.

 

Segundo a Pesquisa Game Brasil 2022, a maioria de jogadoras/es é composta por mulheres, enquanto quase metade é negra. No entanto, é possível identificar problemas diversos quanto à representatividade de tais grupos em jogos. Como o objetivo da Sue The Real dialoga com a tentativa de mudar a lógica vigente no universo gamer como nos casos dos jogos Angola Janga e One Beat Min?

Recebi a pesquisa da Game Brasil 2022 com muita felicidade. A percepção que tinha estava correta: o público feminino está mais presente como nunca esteve, mas isso não se deu porque as grandes empresas da tecnologia e de games abriram espaço para mais mulheres e/ou pessoas negras. Atribuo esse crescimento a uma constante pressão emergente feita de baixo para cima. 

A popularização dos celulares proporcionou a chance de quebrar o estigmas de que jogos eram só para meninos, uma vez que estando disponíveis para mais pessoas, a chance de promover acesso aconteceu por consequência. 

Na Sue The Real pensamos muito nas pessoas negras e suas intersecções. Fazemos games para pessoas apaixonadas pela cultura negra, ao mesmo tempo que articulamos ações práticas para promover acesso e pertencimento às pessoas pretas.

Acreditamos que oportunidades e capacitação para pessoas negras transformarão o ecossistema. Afinal, com mais pessoas pretas jogando e criando seus jogos, teremos a chance de construir um futuro ainda melhor e mais divertido.

Ilustração feita sobre a equipe da Sue The Real (Foto: Arquivo pessoal)

 

Em média, como são os retornos recebidos por você e a equipe da Sue The Real sobre os jogos serem focados em narrativas afro-brasileiras?

É inspirador para mim ver e sentir em como temos recebido apoio de diversas pessoas e empresas que acreditam em nosso trabalho. Recebemos muitas mensagens carinhosas, especialmente pessoas que se conectaram com as nossas obras e até conseguiram convencer um familiar a jogar esses projetos.

Inclusive, a comunidade angolana se identificou com os jogos Angola Janga e Aya, o que nos gerou diversas trocas enriquecedoras entre Brasil e Angola.

Por outro lado, já recebemos alguns “puxões de orelhas” também da comunidade nos cobrando datas de lançamentos dos jogos. Como somos uma equipe pequena, estamos criando maneiras para conseguirmos atender a demanda da comunidade que sempre está presente conosco.

 

Durante a sua participação na websérie Caminhos, você falou sobre o investimento de uma empresa estadunidense para o desenvolvimento do jogo One Beat Min. O que você pode falar sobre o andamento do projeto? E quais são os próximos passos no que diz respeito à distribuição e disseminação do game?

Estamos evoluindo no desenvolvimento e podemos comemorar que já possuímos a nossa primeira demo jogável. Não temos previsão para disponibilizar para o público ainda, pois estamos realizando testes com o nosso time internamente. Em breve, entraremos em negociações para viabilizarmos o jogo completo.

Quanto à distribuição, estamos focando na plataforma de PC e, quem sabe no futuro, esteja disponível em consoles, como Xbox, Nintendo, entre outros.

Um ponto importante a ser mencionado: a Sue The Real sempre visualizou o One Beat Min como um produto a ser distribuído internacionalmente – e isso está se tornando real aos poucos. Além disso, temos um projeto em andamento para distribuição em periferias brasileiras que foram [fontes de] inspiração no desenvolvimento do jogo.

Confira a websérie Caminhos: Memórias, Afetos e Enfrentamentos na Trajetória de Lideranças Negras, da qual Raquel Motta participou

 

Por meio da representatividade, como você se vê quanto à inspiração para mais mulheres e pessoas negras ingressarem na indústria gamer como desenvolvedoras/es em estúdios?

Acredito na filosofia segundo a qual se eu me enxergo em algum ambiente, é mais provável que eu me sinta confortável em estar ali. Isso é algo que se aplica em diversos contextos, pois foi vendo outras mulheres negras atuando profissionalmente na indústria de games que enxerguei essa possibilidade com realidade. 

Em minha curta jornada de cinco anos sendo desenvolvedora de games, comecei a ter a consciência de que ao compartilhar a minha história e ao mostrar os passos que trilhei até aqui, isso foi dando impulso para outras mulheres criarem as jornadas delas.

 

Quais você considera que serão os próximos passos para a sua trajetória profissional?

Estou em um momento de reconstrução por ter tido a oportunidade de ver um mundo com outro olhar nesses últimos seis meses. Os próximos passos estão ainda em definição, porém tenho mapeado algumas coisas.

O planejamento até o momento é ingressar em um curso focado em roteiro de games, melhorar as minhas habilidades com o idioma inglês e criar ações sociais para incentivar a população negra a ser tornar desenvolvedores de jogos focado em cultura negra.

Será uma longa jornada. Então, devo admitir que se tivesse uma receita de bolo, acredito que seria mais fácil.